Neste artigo, vamos explorar a rica história e as deliciosas tradições que envolvem o folar da Páscoa, um doce emblemático da culinária portuguesa, com foco especial na sua versão doce com canela. Prepare-se para uma viagem cultural e gastronómica, descobrindo os segredos por trás deste pão festivo que une gerações.

Páscoa e suas Tradições

Pau de canela e açúcar estão espalhados ao redor do pão.

A História da Páscoa Tradicional

A história do folar da Páscoa está envolta em lendas antigas, desconhecendo-se a sua data de origem precisa. Uma lenda portuguesa narra a história de Mariana, uma jovem que desejava casar cedo e pediu auxílio a Santa Catarina para fazer a escolha certa entre um fidalgo rico e um lavrador pobre. No Domingo de Ramos, Mariana interveio para evitar um confronto fatal entre os dois pretendentes, escolhendo o lavrador, Amaro. Na véspera do Domingo de Páscoa, atormentada pela ameaça do fidalgo, Mariana rezou novamente a Santa Catarina, cuja imagem lhe sorriu. No dia seguinte, ao regressar a casa após colocar flores no altar da Santa, Mariana encontrou um grande bolo, posteriormente conhecido como folar, decorado com ovos inteiros e as mesmas flores que havia oferecido, convencida de que tudo era obra divina.

Costumes e Celebrações de Páscoa

A Páscoa é um período de partilha e alegria, especialmente no Centro de Portugal, onde cada receita de folar conta uma história familiar transmitida por gerações. No Domingo de Ramos, os afilhados oferecem ramos de flores aos seus padrinhos, recebendo em troca um folar no Dia de Páscoa.

Na Covilhã, o folar é enriquecido com canela e erva-doce, e enfeitado com ovos cozidos, que simbolizam fecundidade e abundância. Outras tradições incluem:

TradiçãoLocal e Contexto
“Enterro do Bacalhau”Figueira da Foz, no Sábado de Aleluia, marcando o fim da interdição de consumo de carne durante a Quaresma.
Refeições alternativas na Sexta-Feira SantaBorda do Campo e Vila Verde, com peixe de rio ou amêijoas em substituição da carne.

A Importância do Folar na Páscoa

O folar é uma das mais emblemáticas especialidades gastronómicas portuguesas, um clássico que há séculos marca a quadra pascal e não pode faltar à mesa. Símbolo de prosperidade, este doce tradicional de Páscoa, particularmente presente nas casas abaixo do rio Douro, celebra a amizade e a reconciliação. Em Coimbra, é ainda hoje um costume enraizado os padrinhos comprarem folares para oferecer aos seus afilhados, reforçando os laços familiares e mantendo viva esta rica tradição que une o país durante as festividades.

Folar: A Receita Tradicional

O folar recém-assado está fatiado, revelando seu interior macio e fofinho.

Ingredientes do Folar da Páscoa

Para preparar o autêntico folar tradicional com erva-doce e canela, são necessários os seguintes ingredientes:

6 ovos200 ml de leite gordo
Uma colher de sopa de sal25 gramas de fermento de padeiro
500 gramas de farinha de trigo90 gramas de manteiga
100 gramas de açúcarDuas colheres de chá de canela em pó
Duas colheres de chá de erva-doce 

A receita de Maria de Lourdes Modesto para o folar doce da Páscoa sugere 500g de farinha, 15g de fermento de padeiro, três colheres de sopa de açúcar, dois ovos pequenos, 2,5dl de leite, 100g de manteiga, uma colher de café de sal fino, uma colher de café de erva-doce e uma colher de café de canela. Para a decoração final, são imprescindíveis ovos cozidos.

Passo a Passo da Preparação

Inicie o seu folar tradicional cozendo dois ovos em água temperada com sal, escorra-os e reserve. Em seguida, dissolva o fermento de padeiro no leite morno, misturando até obter uma solução sem grumos. Derreta a manteiga e reserve. Bata três ovos num recipiente amplo, adicione o fermento dissolvido e incorpore bem. Junte a farinha, o açúcar, o sal e a manteiga, amassando tudo até obter uma pasta homogénea. Acrescente a canela e a erva-doce e amasse novamente. Tape a massa com um pano e deixe-a levedar durante cerca de 60 minutos, ou até duplicar de tamanho. Após a massa estar levedada, siga os passos abaixo para moldar e preparar o folar:

  1. Coloque a massa numa bancada de trabalho polvilhada com farinha e reserve uma pequena porção da massa.
  2. Molde o folar em forma de bola ligeiramente achatada e pressione o centro com os dedos para formar uma cova, onde colocará os ovos cozidos com casca.
  3. Com a massa reservada, faça tiras e coloque-as sobre os ovos, pressionando suavemente para fixar.
  4. Coloque o folar num tabuleiro, tape-o e deixe levedar durante cerca de 30 minutos num local quente.
  5. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Bata um ovo e pincele o folar com ovo batido. Leve a cozer durante cerca de 30 minutos.
  6. Retire-o do forno e deixe arrefecer antes de servir morno ou frio.

Dicas para um Folar Doce Perfeito

Para enriquecer ainda mais o seu folar doce, pode adicionar 50 gramas de nozes picadas à massa do folar no momento em que incorporar a farinha. Há quem prefira polvilhá-lo com açúcar enquanto o pão ainda está morno, conferindo-lhe uma doçura extra. Uma alternativa deliciosa é salpicar pepitas de chocolate preto minutos antes de o levar ao forno, para uma surpresa achocolatada. Os ovos cozidos, que decoram o folar, podem ser coloridos naturalmente com cascas de cebola, adicionando um toque rústico e autêntico. Lembre-se que o tempo de fermentação pode variar conforme a temperatura ambiente, por isso, observe a massa com atenção. Por fim, uma dica prática é que pode congelar o folar depois de arrefecer, garantindo que esta iguaria de Páscoa pode ser desfrutada por mais tempo.

Canela e Erva-Doce: Aromas que Encantam

Pau de canela e sementes de erva-doce estão espalhados ao redor do pão.

O Papel da Canela na Receita de Folar

A canela em pó é um dos ingredientes essenciais que enriquecem o sabor do folar, conferindo-lhe um aroma característico e um toque de calor. Na receita do folar tradicional com erva-doce e canela, são utilizadas duas colheres de chá desta especiaria. Já na receita de Maria de Lourdes Modesto, a quantidade é mais contida, com apenas uma colher de café de canela. Após incorporar a farinha, o açúcar, o sal e a manteiga, a canela é acrescentada à massa, que é então amassada novamente para garantir a sua completa distribuição e a infusão dos seus aromas. Este passo é crucial para que o doce final tenha o perfil de sabor desejado e o aroma da canela bem presente, resultando num folar verdadeiramente delicioso e perfumado.

Erva-Doce: Um Toque Especial

A erva-doce é outra especiaria fundamental que enriquece o folar, contribuindo com um sabor anisado e um perfume delicado que complementa perfeitamente a canela. Na receita do folar tradicional com erva-doce e canela, duas colheres de chá desta especiaria são adicionadas, garantindo que o seu toque especial seja sentido em cada fatia. Na versão de Maria de Lourdes Modesto, uma colher de café de erva-doce é incorporada à massa, conferindo um subtil, mas distinto, aroma. A presença da erva-doce é um dos segredos para o folar ter aquele sabor único e reconfortante, evocando memórias da Páscoa tradicional e da culinária portuguesa mais autêntica.

Combinações de Sabores com Canela e Erva-Doce

O folar tradicional é inegavelmente enriquecido com a combinação harmoniosa de especiarias como a canela e a erva-doce, que juntas criam um perfil de sabor e aroma inconfundíveis. A massa do folar tradicional da Páscoa, com esta união, ganha um perfume delicioso que se espalha pela casa durante o cozimento. Em regiões como a Covilhã, o folar é tipicamente feito com estas duas especiarias, demonstrando a importância cultural e gastronómica desta parceria de sabores. A canela e a erva-doce são as almas aromáticas que elevam o folar de um simples pão doce para uma verdadeira celebração sensorial, consolidando-o como um dos símbolos da Páscoa em Portugal.

Moda Antiga e o Folar

Um pão redondo de massa doce está sobre uma mesa rústica de madeira.

Receitas de Folar na Moda Antiga

As receitas de folar preparadas à moda antiga revelam a paciência e a dedicação dos padeiros tradicionais. Uma receita de folar é feita com fermento fresco, especiarias aromáticas e um toque cítrico de limão, que realçam o sabor. O Bolo da Páscoa ou Folar, ou ainda Bolo Doce de Anadia, segundo a Padaria dos Olivais, é um exemplo, sendo amassado e deixado levedar durante cerca de 8 a 9 horas, sendo mexido duas a três vezes nesse período. Após tendidos, são cozidos em forno de lenha de alvenaria. Para o Folar de Páscoa de Batalha, a massa leveda em local quente, coberta com um pano, e após moldar, o folar é colocado num tabuleiro untado e os ovos cozidos são dispostos no topo, mantendo a tradição. Esta paciência é a chave para um folar verdadeiramente especial.

A Evolução do Folar ao Longo dos Anos

A história do folar da Páscoa é um testemunho da evolução da culinária portuguesa. Inicialmente chamado de “folore”, este bolo veio, com o tempo, a ficar conhecido como “folar”, um nome que hoje é sinónimo de Páscoa em Portugal. Os Bolos de Festa, também conhecidos como Folares da Páscoa, são característicos desta época pascal em Castelo Branco, demonstrando a sua forte ligação às celebrações religiosas e culturais. Em Coimbra, as casas monásticas legaram iguarias como os folares, que se repartiam pelos prelados, indicando a sua relevância histórica e a sua presença em diferentes estratos sociais ao longo dos séculos. Esta evolução reflete a capacidade do folar de se adaptar e de permanecer relevante através dos tempos.

Como Preservar a Tradição do Folar de Páscoa

Preservar a tradição do folar de Páscoa é essencial para manter viva a riqueza cultural de Portugal. No Centro de Portugal, as tradições de Páscoa ganham um sabor especial, com receitas que contam uma história de família, transmitida de geração em geração, como um verdadeiro tesouro gastronómico. O folar tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação, reforçando os laços comunitários e familiares. Em Castelo Branco, a presença da doçaria tradicional, incluindo os Bolos de Festa/Folares da Páscoa, é normal nas casas durante esta época, sublinhando a sua importância no contexto das festividades. Continuar a preparar e partilhar o folar é uma forma de honrar o passado e de garantir que as futuras gerações possam desfrutar desta iguaria tão significativa.