Padre Fontes vai ser distinguido com o título de Embaixador do Alto Tâmega e Barroso

2023-03-16 11:23:52

Depois do Selecionador Nacional de Futsal Jorge Braz e da Orquestra de Sopros da Academia de Artes de Chaves, a Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega e Barroso vai distinguir agora o Padre Fontes com o título ''Embaixador do Alto Tâmega e Barroso''. Este é o terceiro título que a CIMAT atribuiu a cidadãos ou entidades que se destaquem pelo percurso de excelência.


O Padre Fontes, figura incontornável do Barroso, vai ser homenageado com título de ''Embaixador do Alto Tâmega e Barroso'' pela Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega e Barroso (CIMAT), na segunda-feira, dia 27 de março, no Casino de Pedras Salgadas – Vila Pouca de Aguiar, integrada no ''Fórum Turismo, Sustentabilidade e Crescimento do Interior''.
Segundo a CIMAT, a rede de Embaixadores do Alto Tâmega e Barroso tem como objetivo “reconhecer o valor de cidadãos/entidades oriundos do território que nas mais variadas áreas de atividade têm tido um percurso de excelência, mantendo o orgulho nas suas origens e tendo como princípios a humildade e a capacidade de superação”“.

Com 83 anos, o Padre Fontes é o principal impulsionador do Congresso de Medicina Popular, em Vilar de Perdizes, e das ''Sextas-Feiras 13'' em Montalegre.

”Todo o percurso de vida do Padre Fontes, se alinha com este propósito destacando a sua resiliência, pois, apesar da sua condição de saúde se ter agravado ao longo dos últimos anos, e da idade já avançada, aceitou a doença, não deixando que o diagnóstico seja um fator limitador para o seu contributo no crescimento e reconhecimento da região”, motivos que levaram a CIMAT a homenagear esta figura emblemática do território, que “apesar de ser uma figura muito associada ao concelho de Montalegre, todo o trabalho desenvolvido nas diversas temáticas e, em específico, na vertente turística, tem permitido dar visibilidade e reconhecimento, não só a este município, como aos demais pertencentes ao território do Alto Tâmega e Barroso”.

Com esta distinção, o Padre Fontes torna-se assim, no terceiro Embaixador do Alto Tâmega e Barroso, a integrar esta rede de embaixadores.

Sara Esteves
Foto: David Teixeira



Nota Biográfica:

António Lourenço Fontes nasceu a 22 de fevereiro de 1940 na localidade de Cambezes do Rio, concelho de Montalegre. Desde cedo a sua curiosidade, audácia e irreverência se fizeram notar. Ainda muito jovem, e sempre que possível, este barrosão procurava absorver todas as estórias e ladainhas típicas da região do Barroso que a sua mãe, Ana de Jesus Lourenço, tão sabiamente lhe transmitia. Esta ligação à sua terra natal ficou reforçada após ter ingressado no Seminário de Vila Real, em 1950, e foi assim à distância, vivendo entre dois mundos, que António Lourenço Fontes alcançou a visão futura relativamente ao simples e encantador território onde viveu a sua infância. Durante os 12 anos que esteve no Seminário descobriu o gosto pelas viagens, partindo, muitas das vezes, sozinho, de mochila às costas, à descoberta de Portugal e de Espanha, realizando uma pesquisa etnográfica exaustiva. Foi também durante este período que nasceu a sua veia literária e jornalística, sendo cofundador de um jornal, no qual assinou vários artigos sob o pseudónimo “Ramiro Concha do Rio”. Em 1962 é ordenado padre e, no ano seguinte, assume, durante oito anos, a responsabilidade pela paróquia raiana de Tourém, Pitões das Júnias e Covelães. Foi neste período que o Padre Fontes teve contacto com uma realidade socioeconómica muito centrada em si mesma, iniciando aqui a descoberta do seu interior, marcando-o profundamente como ser humano, aliando à investigação científica, a promoção de vários cursos de capacitação agrícola e programas de distribuição de comida às populações carenciadas da fronteira, contando aqui com a ajuda da sua irmã, Maria de Jesus. Nesta época, a sua irreverência foi ainda mais vincada tendo decidido não usar batina nem cabeção, algo quase inédito para a época. Chegou como pároco de Vilar de Perdizes no ano de 1971 tendo, nos anos subsequentes, aprofundado a sua intervenção etnográfica e científica com a criação de grupos culturais, congressos internacionais e ainda um periódico de referência regional, que até 2006 se manteve sob a sua direção: o jornal Notícias de Barroso. No início da década de 70 os habitantes da aldeia de Vilar de Perdizes viviam numa espécie de conflito entre a medicina popular e a medicina convencional, recém-chegada à região do Barroso na forma do médico de família. Posto isto, o Padre Fontes começou a desenhar um evento capaz de fazer a ponte entre estes dois mundos, vindo, anos mais tarde, a nascer o Congresso de Medicina Popular. Ainda na década de 70, o Padre Fontes concluiu a licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e foi ainda bolseiro de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian durante o primeiro semestre de 1978. A sua reputação, já crescente, levou-o a participar, como orador ou simplesmente como interessado, em vários congressos realizados em Portugal e em Espanha. Foi no ano de 1983 que nasceu em Vilar de Perdizes o já referido Congresso de Medicina Popular, que leva já com mais de três décadas de existência. Ao longo de todos estes anos, este evento tem tido a capacidade de atrair bruxos, endireitas, charlatões, e outras pessoas ligadas ao misticismo, bem como académicos, investigadores e médicos, homens e mulheres ligados ao mundo da ciência. A imagem do Padre Fontes associada a este evento tem também atraído pessoas de outras áreas movidas pela curiosidade e pelo fascínio de conhecerem este homem muito à frente no seu tempo. Esta iniciativa foi uma das impulsionadoras do turismo na região do Barroso, e não só, com os concelhos vizinhos a ganharem também mais visitantes por esta altura. Tendo em conta este potencial turístico e cultural do território, nasceu, ainda na década de 80, a ideia da criação de um Ecomuseu de Barroso, projeto muito bem cimentado nos dias de hoje, com quatro polos na região (três em Montalegre e um em Boticas), tendo um deles sido batizado de “Espaço Padre Fontes”. Ainda nos anos 80, o Padre Fontes, muito preocupado com o desaparecimento da Cultura Popular de Barroso, organizou vários eventos em torno de tudo o que esta temática abarca. Em 2002 nasce do Congresso de Medicina Popular aquele que é hoje o ex-libris do concelho de Montalegre: A Sexta 13. Graças à presença sempre garantida do Padre Fontes, com a realização da célebre queimada e do esconjuro, sendo a figura principal deste evento, as várias edições contam com milhares de visitantes que se deslocam ao território nesta data para vivenciar todo o ritual e misticismo por este criado. A Sexta 13, que tem como ponto central a superstição, é, mais do que um motivo de celebração pública, uma forma de manifestação da forma como o Padre Fontes tem sido durante estes 83 anos de existência: momento de afrontação a todas as formas dogmáticas de olhar a vida, uma quebra com todos os estigmas. Ainda no início dos anos 2000 este barrosão adquire um solar datado do século XVIII, em Mourilhe, que reabilita para turismo rural. Tendo em conta todo o potencial turístico gerado pelo Congresso de Medicina Popular e pela Sexta 13, o município de Montalegre implementou outras iniciativas, como a Feira do Fumeiro, que é já considerada a rainha deste tipo de certames do nosso país, recebendo milhares de visitantes nacionais e internacionais, e que representa uma grande fatia no bolo económico da região, fazendo também lucrar a restauração e a hotelaria dos concelhos vizinhos, nomeadamente os que compõem a região do Alto Tâmega e Barroso. Estas têm sido três das principais âncoras da dinamização económica, turística e cultural do concelho de Montalegre, e das quais os demais também ganham. Todo este percurso de vida se alinha com o objetivo da rede de Embaixadores do Alto Tâmega e Barroso, que é o de reconhecer o valor de cidadãos/entidades oriundos do território que nas mais variadas áreas de atividade têm tido um percurso de excelência, mantendo o orgulho nas suas origens e tendo como princípios a humildade e a capacidade de superação. Também neste último ponto o Padre Fontes tem sido um exemplo, pois, apesar da sua condição de saúde se ter agravado ao longo dos últimos anos, e da idade já avançada, aceitou a doença, não deixando que o diagnóstico seja um fator limitador para o seu contributo no crescimento e reconhecimento da região. Um homem que sempre quis ser igual a si próprio, abrindo-se à luz, “viesse esta de dentro ou de fora da Igreja”. Um barrosão conhecido e reconhecido nacional e internacionalmente, que dá também o seu nome a um vinho proveniente de castas antigas das encostas entre a zona de Valpaços e Mirandela, e que sempre se esforçou por levar a região transmontana pelo nosso país e além-fronteiras. “Tenho duas grandes paixões: a terra que me viu nascer e dá sentido à vida, e Deus que me dá tempo e prazer de estar sempre de porta aberta a quem veja e espere de mim algo” . Padre Fontes.


 


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