REGIÃO: Pessoas sem saber ler foram garantia de uma tradição

2021-04-03 22:50:07

Pessoas sem saber ler foram o garante de uma tradição que a região do Alto Tâmega não quer perder e mesmo em tempo de pandemia onde os ajuntamentos estão proibidos, é sempre bom recordar e avivar memórias.
Aldeias como Vilar de Perdizes, Bustelo, Curalha, Outeiro Seco e Curral de Vacas (Santo António de Monforte), já tiveram por tradição organizar essa encenação, mas atualmente só mesmo Vilar de Perdizes faz questão de manter viva a memória do povo, que mesmo sem saber ler fazia noutros tempos questão de se reunir e apresentar o Auto da Paixão de Cristo, que chamava às aldeias centenas de pessoas. Após cinco anos de interregno, a Associação de Defesa do Património de Vilar de Perdizes, quis no ano 2020, voltar a realizar o «Auto da Paixão», que estava agendado para sexta-feira santa que calhava a 10 abril e já tinha mobilizada a população da aldeia, considerada mística também pelas celebrações da Noite das Bruxas, mas a pandemia não deixou que o espetáculo que narra a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, voltasse a nascer da tradição da afirmação das aldeia que conseguiam chamar até si centenas de pessoas.
António Joaquim Dias é um jovem padre, também Capelão do RI19, que vive esta região com paixão, tem como sonho que o Auto da Paixão não morra e enche-se de orgulho quando fala em todas as aldeias da região que conseguiram, «em tempos bem mais difíceis, encenar esta obra. A Páscoa é festa de ressurgir a vida que a Ressurreição tão bem exemplifica. As aldeias do Alto Tâmega são um excelente reservatório tradições teatrais sobre os últimos dias da vida de Jesus. Tradições essas que manifestam o comunitarismo destas terras, a capacidade de, muitas vezes sem saber ler nem escrever, transmitirem ao serão das noites frias, uma manifestação de cultura e religião», começa por nos contar o sacerdote António Joaquim Dias, que vai mesmo mais longe e relembra a história. «Manuel de Oliveira e Miguel Torga, ilustres escritor e realizador foram estudiosos e curiosos desta tradição na nossa zona e deixaram para a posteridade a lembrança provocatória de continuarmos, hoje e todos os anos, uma tradição secular que aguentava as frias noites do nossos invernos, a iliteracia a que estávamos sujeitos, e, sobretudo, a resistência fazerem catequese, convívio e cultura para abrir a toda a comunidade, na praça mais importante, a cultura dum povo», sublinhou.
Inserido numa cultura em voga numa época pós medieval, os autos da paixão são manifestações de cultura e superação, de religiosidade e particularidades de cada aldeia de cada ensaiador.
«Urge animar os poucos que resistem em cada uma destas terras a se unirem e animarem e ser um cartaz neste tempo pascal», concluiu António Joaquim Dias.

Paulo Silva Reis


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